Sentado no crepúsculo à beira-rio sobre os sonhos que inventa a cada dia para que lhe não morra a alma nem o corpo onde ainda mora e tanta falta lhe faz. Onde sem escolha tem que morar. Já pensara atirar a supérflua morada ao rio. Livrar-se do incómodo e trôpego peso a carne. E o que lhe pesa… perdeu a leveza e fulgor de outros tempos. Do tempo em que a matéria quase apanhava a fantasia e a acompanhava em loucuras imputáveis à idade. Do tempo em que lhe não sentia o peso em que o não arrastava pela calçada… quando corpo e alma eram um só. Do tempo em que o corpo levava a alma mais além, para depois do pensar e mais ainda. Quando voavam com a luz a par e passo num punhado de metros de corredor e se abrigavam entre muralhas impenetráveis de almofadas ou na infinita profundeza de uma gruta de lençóis. Quando as princesas moravam sós na mais alta torre do sofá e o bravo cavaleiro ia veloz em missão de salvamento a galope de vassouras. No tempo em que o ser era uno e o corpo um aliado. Agora nada lhe dá senão trabalho e precária morada. Já se enchera de vontade de o calar. Desocupá-lo no destino da corrente feito barco de papel. Dar-lhe bilhete de ida até ao mar. E é sempre na inclinação do mergulho quando o olhar respinga o espelho d’água que uma súbita saudade lhe atesta o peito e lhe acelera a cadência no vazio que enche de ritmo morno. Sente-se. Em palpitações plenas de vida. Comove-se. Foge-lhe a lágrima doce em sal serpenteando os vincados sulcos da face. Os traços minuciosamente esculpidos a tempo as doces marcas do viver do viver muito do viver em quantidade. Guarda-se o quanto na pele e no peito o seu valor. E tanto lhe vale o quanto tanto lhe valem aqueles sulcos… e toda a vida que por eles passou talvez já toda. Um arquivo repleto de memórias lá no sótão. Revolve-o. Onde as fronteiras e o tempo são voláteis onde se moldam a cada pensamento. E assim, livre de amarras com o sal cristalizado por entre as pregas da face ergue o corpo que amparado na bengala corre veloz por entre as vidas arrastadas da cidade. Vidas resumidas a corpos que hão-de um dia perecer em esquecimento vazios de luz. E de casa amparada no bordão toma novo sonho ou outro antigo e voa com a luz ou para lá dela entre princesas e castelos e muralhas veloz no dorso imaculado de unicórnio livre de tempos corpos ou amarras livre da leve fadiga de criança… e entre lembranças soltas a galope impele agora aos poucos o peso que o persegue a toda a hora os pesados passos de um sorriso a cada dia mais inteiro em verdade e em memórias.
do It. sbozzo s. m., delineação inicial de uma pintura, escultura ou desenho; bosquejo; fig., resumo; sinopse.
27.4.08
23.2.08
19.2.08
18.2.08
30.11.07
19.11.07
12.10.07
8.10.07
A luz foi-se há horas. E com ela todo um mundo do dia-a-dia. A inquietude duma vela dessa vela! Quanto silêncio! De quando em quando ouves gente como tu. Quase em desespero tão longe de ti. E que fazer agora sem luz? Num repentino mergulho em silêncio de cera no ribombar de ininterruptos tic-tacs. Paras o tempo. Finges pará-lo quando o calas para que não lembre o agora moroso passar. E ficas tu. Fitas a dança ritmada dessa chama. O balançar terno e sensual. A volúvel dança em nostalgia feita forma. E o que te lembra. Tanto do que foste e do que te faz hoje ser. Falta-te a melodia a acompanhar. Faltam-te os sonhos feitos som falta-te vida para lá de ti. E de novo o desespero de quem já não sabe falar. A ansiedade eufórica enche o escuro das ruas. E de repente tudo pára. Até o tempo já sem voz para ripostar. Enches a alma de cheiro a pavio sentes o quente no rosto no peito e o bafo agridoce a nostalgia. O mar que te encharca o palato e te espreme devagar. Lembras tanto do que foste tanto que não quiseste ser. E aprendes-te em monólogos peças soltas do pensar. Sabes-te um pouco mais na verdade que te faz a alma na cobarde coragem que te molda o ser. O mundo dorme. A luz foi-se há horas. E tu de tempo parado e nova vela. Lês-te. Sorris na abrangência do que não vês.
28.9.07
Escondes-te. Por detrás da janela. No vestíbulo. Lá fora os transeuntes do costume. O mesmo ruído por debaixo da pele. E o que te move o mesmo. O ritmo o bater certo dos passos feitos peito. Tanto de vida por entrelinhas. Um vestíbulo a janela e ao fundo a lua cheia. Enorme. Fecunda em sonhos. Quão fértil consegues ser? Enterra a aridez adulta que és. Do esterco se fará viçosa a flor. Sonha. Encolhe no ínfimo da matéria explode em cor. Envolve-te. Revolve-te. Não nasças para lá do necessário. (re)nasce. Sê-te e leva-te ao limite. Leva-te em sonho leva-o até parecer tombar e colhe-o entre nova sementeira. Surdam sonhos em magotes enquanto o tempo ainda for tempo enquanto o tempo for de inventar.
nos entrementes sorri
11.9.07
25.8.07
Ouve-te! Lá fundo no peito. Dentro de ti onde te bate o coração. Ouve-o. Ouve-lhe o embalo desajeitado do verbo. Deixa-o falar. Que verbalize o ritmo veloz e alucinante dos sentidos. O inchado compasso de vida. O calor propagado ao ínfimo ponto do ser o rubor a encher maçãs. Sente o sabor o veneno que o atesta. Ouve-te. Ouve-o agora que o partilhas…
Que te conta?
19.8.07
12.7.07
No calmo espelho do rio. Onde me olho como em nenhum outro lugar. Onde refresco a mente em travos largos. Onde bebo o reflexo na concha das mãos e me encho de mim inteiro nas ondas da concha. No suave ondular das mãos. E bebo. Revigoro-me na fresca ânsia de mar ainda tão fresca impregnada de vida. Ainda tão longe do sal… No calmo espelho do rio onde me procuro e me fundo onde te encontro em flashes da memória tomada de assalto pelo imenso que és. No calmo espelho do rio onde me deixo ir a caminho do mar. Já o sabes. É onde quero morar…
30.6.07
Mais que um nome que um rosto que uma vida. Um passado uma herança esta história. A genética a cultura e a memória. O futuro um legado e nova história. Tudo o que és e te fizeram o que fizeste ao que já sou. O que sinto e o que sentes o que me dás o que te dou. A certeza do encontro ainda que vás onde não vou. As verdades os sorrisos que no peito hão-de morar. O abraço que te peço sem dizer o abraço que ambos damos sem tocar. O brinde que te faço sem beber o laço eterno que nos une além do mar…
Saúde!
Saúde!
28.6.07
Abraças-te ao silêncio à imagem da noite. Tentas evitar a loucura do vazio… o amargo da companhia… os fantasmas que te guiarão os segundos. Um resto de vontade um querer mais que tudo uma força tão frágil tão fugaz. A força que tentas recuperar num suspiro. A saudade de ter sido a coragem de querer ser. O beijo de boa-noite um sono de pedra por detrás dum rosto de anjo… suspiro! Amanhã hás-de sorrir de novo…
20.6.07
Viajo à janela dum comboio sem destino. Passa-me a paisagem diante dos olhos em constante monotonia. Não a retenho. Deixo-a passar como aos passageiros perdidos numa vida só deles cheia deles. Esticam o braço para validarem a passagem e voltam aos seus eus sem perguntas ou queixumes. A viagem continua mas há sempre um fim da linha. Valerá a pena sair?
18.6.07
É em dias como o de hoje que num repente, assim como se do nada, surge a ânsia pelo imenso - verde azul imenso. Anseia-se o canto o frescor o imenso. Anseia-se crispado. Irrequieto em espuma na areia. Anseia-se o sal nos pés. A leveza no mergulho na calma o frio no corpo nos lábios. Um olhar de sal por sobre a recôndita alma do mundo. Um outro silêncio brando em gestos perfeitos de paz. Um riso imenso em bolhas de sonhos que hão-de nascer. O riso fundo da inocência que ainda se é sentido à séria num instante roubado ao mundo…
Anseia-se um corpo sabor a sal.
Anseia-se um corpo sabor a sal.
17.6.07
Num beijo prova-se o tempo prova-se o mar prova-se o querer às vezes sem se querer. Prova-se o doce prova-se o morno prova-se a alma que brota em bica do olhar. Prova-se o verbo o silêncio o abraço apertado de ternura. Prova-se o ritmo alucinado do peito. Prova-se a vida prova-se um vício prova-se a paz que ninguém sabia existir. Prova-se e não há como parar…
Já provaste? *
Já provaste? *
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